
Sei que nada se perde. Mesmo que os dias percam metade do sabor que os fazes ter, mas nada se perde. Nunca ninguém me fez crescer tanto. Às vezes sinto que penso demais, que escolho tempos e pausas para respirar, e que modero momentos para sorrir. Demoro a perceber que sofro por pensar só em mim, e em como tudo tem de sair perfeito. De como tudo, vindo de mim, tem de cair que nem rosas leves nas pessoas que me rodeiam. E nunca paro para pensar que as pessoas fazem o tempo, e que o tempo faz a importância que elas de mim merecem. Esqueço-me tantas vezes de ser feliz, só por mim. Feliz porque existo e porque nunca fiz sofrer ninguém, feliz porque dou a mão quando eu preciso de um corpo inteiro para me salvar. Feliz porque conheço as pessoas certas e não deixo chegar perto quem não me quer bem. Feliz por ter valores, por gostar de flores, pela maturidade saudável que conheci, pela música que ouço, pelos passeios que faço, pelos caminhos que não retorno: sigo sempre, pelos meus pais, por coisas que me são, somente – e tanto – me são. Não te esqueças, Luísa, que os pequenos anjos precisam de se tornarem diabos, precisam de pisar o inferno, precisam de sofrer para dar valor às asas que têm, à sorte com que nasceram de poder voar, sem nunca pisar ninguém. Não te esqueças que o amor não é de sorrisos extremos. Que o amor não resulta se o desejo ultrapassar a cumplicidade, nem se deixares de atender chamadas a meio da noite por desconfiança. Lembra-te que a vida tem voltas, e voltas, e voltas. E tudo volta, tudo fica, tudo vai. Tudo se parte, tu toma rumo. Tudo faz rir, ou tudo faz chorar. Lembra-te de amar a vida e aprender com ela e contigo. Aprende contigo que a felicidade vem sobretudo de ti, dos teus olhos a sorrir, das tuas noites sem dormir – apaixonada. Lembra-te que vais ter sempre quem te limpe a cara e peça para não chorar, lembra-te que não te deves culpar tanto.
Lembra-te de me sorrir, meu amor. O meu coração fica do tamanho da areia, e eu construo sempre os palácios perto do mar, e rápido são sugados pela água. Selvagem. E eu doce. Com medo. Encolhida. Com incertezas. Eu sem nada, eu com tudo. Eu vazia. Eu: um traste. Eu feliz. Eu sozinha. Eu desaparecida. Eu fugitiva. Eu nunca mais. Nunca mais. Lembra-te de mim, Luísa, não te esqueças tanto de mim. Não te esqueças tanto de ti